Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas -
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
Homens e mulheres riram de mim e alguns
correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
"É um louco!".
Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:
"Benditos, bendito os ladrões que
roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos
compreende escraviza alguma coisa em nós.
Gibran Kahlil Gibran
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O Louco
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domingo, 9 de agosto de 2009
As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...
(Mario Quintana)
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*Teca*
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A filha de um poeta

Uma avenida deserta de sentimentos
Num domingo sonolento
Um encontro sem hora e local marcados
E com uma única lufada de vento
Com tempo e ausência de movimento
Palavras mágicas e tudo muda
Não sei explicar o que se passou
Quem eram eles e ao que vieram
Não foi só esta a dúvida que ficou
Foi o que me disseram que me chocou
"Menina bonita és filha de um poeta"
E eu consegui apenas ficar perplexa.
Palavras que sem sentimento
Teriam sido levadas com aquele vento
Mas, quando naquele olhar reconheci
Carinho de avô e orgulho de pai
Cá dentro estremeci
Porque nunca esperei o que ouvi.
Nada daquilo fazia sentido
Até que percebi qual a poesia
Não nos poemas que o meu pai nunca escreveu
Mas no poema que nasceu
E que ali estava naquela avenida
Era eu...
Someia Umarji
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*Teca*
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terça-feira, 28 de julho de 2009
MEU SILÊNCIO

Não me queixo dos dissabores
Não lhe falo dos meus problemas
Dos meus medos, dos meus pavores
São meu carma, minhas algemas
Se me calo, se nada digo
E me escondo no sofrimento
No silêncio é que encontro o abrigo
Que ameniza este meu tormento
Na verdade quero gritar
Excluir deste coração
Esta angústia a me sufocar
Toda a mágoa e desilusão...
Não lhe falo desta tristeza
Desta vida de semi-morta
Neste mundo sou caça presa
Da gaiola fechei a porta.
Miriam Panighel Carvalho
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segunda-feira, 27 de julho de 2009
LUgar...

Tenho um meu lugar,
Que guardo só para mim,
Em segredo onde o tempo não tem fim…
E sei onde encontrar,
Se o certo é me perder,
Num instante esse mundo tão meu…
Sei eu, sei eu…
Sei eu, sei eu,
De um mundo só meu…
Só meu, só meu…
Só meu, só meu…
Que há dentro de ti…
Dentro de ti…
E afasto sem quebrar,
Por todo o meu jardim,
Ramos soltos que me querem ver cair…
E sei onde esperar,
Se o certo é me encontrar,
Bem distante nesse o mundo tão meu…
"Lugar" de Pedro Khima
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terça-feira, 7 de julho de 2009
Vira Poesia

Vestida de fantasia
saio em busca das ilusões,
entro por todas as ruas proibidas
fugindo do real...
Minha fortuna é o sonho,
debruçada na ponte, falo com o rio
dentro da imaginação vertiginosa,
conto coisas reais, ouço a voz
das águas, o riso, o soluço, os sonhos
de amor, lamento de grande dor...
Sonho dentro da noite,
olhando as as estrelas
confesso meu amor,
sonho pelo prazer de sonhar,
livre de amarras,
do ódio,
da cobiça,
coração puro e límpido como água
observo a natureza,
as montanhas azuis,
o céu coalhado de estrelas,
astros que passeiam
vagando na imensidão...
O Universo conspira,
vira poesia!
(Marta Peres)
*****
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sábado, 27 de junho de 2009
Te olhar

Foi bom te rever, sentados eu e você
Te olhando nos olhos, relembrando um viver
Me contive ao extremo pra não declarar
Mais uma vez o amor que sinto em meu ser
Te olhando chorei, sem você perceber
É que o coração aprendeu a chorar e se esconder
Chorei de alegria, chorei de prazer
Chorei por te imaginar, feliz em me ver
Lembrei dos momentos que retratam poesia
Do primeiro encontro que aconteceu naquele dia
Um beijo roubei, sem você perceber
Não foi um beijo dado, daqueles molhados
Hoje foi um beijo sublime, foi beijo sonhado
Mas não consegui o que o coração quis dizer
Não deixei sair de mim e chegar até você
Mas a alma tocada, pela emoção sentida
Foi no abraço que dei e falei, na hora da despedida
Você não notou, nem ao menos escutou
É que falei com meu coração baixinho pro seu
Ele, eu tenho certeza, sabe que o meu é seu
Por isso ele guardou, meu coração dentro do teu
Você é um presente que Deus me deu
Mas não disse nada
Mesmo querendo dizer
Achei melhor ficar assim...
Sonhei que estava sonhando
Que no sonho pedia
Por favor volta pra mim
A resposta meu coração já sabia
Que não será nessa passagem
E que você iria dizer
Me desculpe poeta, eu não poder escolher
Foi bom te olhar
E sonhando de sonhar
Que um dia quem sabe
A gente possa novamente
Se olhar
(Jorge Luz Vargas)
Poema publicado no site
http://www.amorempoesia.com.br/visualizar.php?idt=1666446
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sábado, 13 de junho de 2009
Quando o amor chegar...

Não adianta o amor procurar
Simplesmente ame!!!
O amor é que vai te encontrar
Onde e quando você menos esperar
Seja no trabalho na rua,
ou numa mesa de bar
Esteja bem ou mal vestido
Esteja mal ou bem humorado
Nem a pressa nem a ansiedade
vai fazer ele chegar
muito menos a angústia pela espera
No lugar e hora certa ele vai te achar
O amor vê com olhos
diferentes dos nossos
Ele vê com os olhos do coração
Bem diferentes do sentido da visão
Ele vê com o olhar da intuição
que vê comportamentos, atitudes e emoções
Vê com os sentimentos da alma
que enxerga com o seu olhar todo misterioso
E quando você acorda de um toque de mão
você já esta nos cheiros e toques da sedução
Nos mistérios e labirintos da atração
Sem pensar com a Razão, e sim com o coração
Com poucos encontros e pronto
Vocês estão apaixonados
Fazendo as coisas ridiculas dos enamorados
Nos colos da Paixão ninando para o Amor o Coração
Quando com um silêncio o seu efeito for maior que mil
palavras... é porque encontramos o coração certo para
comunicar.
Desconheço autoria
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*Teca*
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sexta-feira, 10 de abril de 2009
Feliz Páscoa
Que a doçura da Páscoa se prolongue por toda eternidade.
Que o coelhinho deixe para você uma cesta
de amor e felicidade!
Que neste dia de Páscoa renasça a alegria da criança
que existe em você.
Que o milagre da vida encante o seu coração.
E que nossa amizade sempre se renove!!!
Feliz Páscoa!!!!
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*Teca*
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
O Amanhecer

Olhe o dia amanhecendo
e você vai sentir que, em quase tudo, há anjos tecendo o alvorecer.
Uns são raios de sol
que vêm descendo,para iluminar o que de bom a gente sonha fazer.
Outros são canções suaves
que quando em silêncio, a gente ouve em toda fonte que jorra,
em cada onda que bate,
em cada sopro de vento,
em cada silvo selvagem,
em cada bicho que corre,
em cada flor ao nascer.
Eles são fontes de energia e proteção, presentes em seus planos, desejos, vontades,
em tudo o que o amanhecer inspira.
Só que é preciso fechar os olhos para ver, e ouvir o coração dizendo que a gente é como gota d'água, nesse mar imenso do universo, com o poder infinito de transformar o que é invisível em cores do arco-íris.
Acredite.
Cada manhã dá luz a um novo dia, mas é você quem faz nascer a alegria.
(Desconheço o Autor)
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*Teca*
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.
Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!
(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'
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*Teca*
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Que Importa?...

Eu era a desdenhosa, a indif'rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.
Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.
Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!
Nela refresca a boca um só instante...
Que importa?... Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes... quando passa?...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
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*Teca*
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Paixão Secreta

Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.
Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.
Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.
Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...
Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.
Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões
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Do Poema

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —
o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente"
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quarta-feira, 4 de março de 2009
Horas Vivas

Noite: abrem-se as flores...
Que esplendores!
Cíntia sonha amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.
Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.
— “Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!
— Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.
— “Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? – por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos – horas vivas
De dormir!” –
Machado de Assis, in 'Crisálidas'
*****
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*Teca*
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Quási

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
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domingo, 15 de fevereiro de 2009
As Faces do Amor

Tudo na vida, seja o que for,
Tem seu tempo, suas fases.
Assim também é o amor,
Que nos invade com suas várias faces.
Existe um amor vulgar,
Que nos leva à loucura, nos tira a razão.
Impõe-se sobre tudo, quer estar sempre em primeiro lugar,
Mas, esconde-se, sob a face da paixão.
Há também o amor ardente,
Que nos excita até mesmo com um simples beijo.
Esta face ardilosa, excitante e envolvente,
Apresenta-se, imortalmente, como desejo.
Mas entre tantos desejos e tantas paixões,
Existe uma face rara, bonita,
Procurada intensamente.
É a mais pura das emoções,
Acredita-se até que seja infinita,
Imortal, sincera e eloqüente.
Esta face não desperta rancores,
Não se submete à maldade.
É o mais belo entre todos os amores,
É o amor d’alma, que se sobrepõe à eternidade!
“Que Deus me permita vivê-lo!”
Anderson Douglas Ribeiro
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Distância
Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.
Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!
Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.
Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!
Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro, in "Antemanhã"
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*Teca*
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Caminhos
Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? — Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá.
Pra quê? — Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,
Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota d'água flébil,
Há muito tempo se esconde.
Pra quê? — Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz.
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim.
Francisco Bugalho, in "Paisagem"
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*Teca*
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What Flower
Are You?